terça-feira, 3 de outubro de 2023

Prêmio Nobel de Física 2023

Os três ganhadores do Nobel de Física 2023 estão sendo reconhecidos por seus experimentos, que deram à humanidade novas ferramentas para explorar o mundo dos elétrons dentro dos átomos e moléculas. Pierre Agostini, Ferenc Krausz e Anne L’Huillier demonstraram uma maneira de criar pulsos de luz extremamente curtos que podem ser usados ​​para medir os processos rápidos nos quais os elétrons se movem ou mudam de energia.

Eventos em movimento rápido fluem uns para os outros quando percebidos pelos humanos, assim como um filme que consiste em imagens estáticas é percebido como um movimento contínuo. Se quisermos investigar eventos realmente breves, precisaremos de tecnologia especial. No mundo dos elétrons, as mudanças ocorrem em alguns décimos de attosegundo, ou 10⁻¹⁸ segundos. Um attosegundo é tão curto que há tantos em um segundo quantos segundos desde o nascimento do universo. As experiências dos laureados produziram pulsos de luz tão curtos que são medidos em attossegundos, demonstrando assim que esses pulsos podem ser usados ​​para fornecer imagens de processos dentro de átomos e moléculas.

Em 1987, Anne L’Huillier descobriu que muitos overtones diferentes de luz surgiam quando ela transmitia luz laser infravermelha através de um gás nobre. Cada overtone é uma onda de luz com um determinado número de ciclos para cada ciclo da luz laser. Eles são causados ​​​​pela interação da luz laser com os átomos do gás; dá a alguns elétrons energia extra que é então emitida como luz. Anne L’Huillier continuou a explorar este fenômeno, preparando o terreno para avanços subsequentes. Mais adiante, em 2001, Pierre Agostini conseguiu produzir e investigar uma série de pulsos de luz consecutivos, em que cada pulso durou apenas 250 attossegundos. Ao mesmo tempo, Ferenc Krausz trabalhava com outro tipo de experimento, que permitia isolar um único pulso de luz com duração de 650 attossegundos.

As contribuições dos laureados permitiram a investigação de processos que são tão rápidos que antes eram impossíveis de se observar. “Agora podemos abrir a porta para o mundo dos elétrons. A física do attosegundo nos dá a oportunidade de compreender os mecanismos que são governados por elétrons. O próximo passo será utilizá-los”, afirma Eva Olsson, presidente do Comitê do Nobel de Física. De fato, é possível que existam diversas aplicações potenciais em muitas áreas diferentes como na eletrônica e na biomedicina, por exemplo, como em diagnósticos médicos [1].

É interessante destacar que além desses três personagens que ganharam o Prêmio Nobel, um pesquisador da Bell Labs, nos Estados Unidos, também pesquisava o assunto na década de 80 e desempenhou um importante papel. Trata-se de Chuck Shank, que desenvolveu técnicas para se atingir os femtosegundos. Shank trabalhou com o chamado laser com CPM (colliding pulses modelocking) com o qual se conseguiu pulsos de 60 fs. Shank, juntamente com Roger Stolen e Ippen, descobriram que passando o laser em uma fibra óptica, a automodulação de fase criava novas frequências, que vinham atrasadas ou adiantadas no pulso. Essa frequência que varia no tempo é chamada de chirp. O pesquisador Wayne Knox através do uso de uma grade de difração conseguiu cancelar o chirp e como consequência obteve um pulso de 8 fs.

Nesse ponto, entram em cena dois professores brasileiros vinculados ao Instituto de Física da Unicamp. O primeiro foi o Prof. Carlos Henrique de Brito Cruz, que trabalhou no Bell Labs entre 1986 e 1987. Brito incorporou um prisma, além da grade de difração, e obteve um pulso de 6 fs. Esse foi o récorde de pulsos curtos por mais de uma década. Depois, em 1988, chegou ao Bell Labs o Prof. Carlos Lenz César, ali permanecendo até 1990. Nesse período o Prof. Lenz conseguiu o pulso mais curto no infravermelho, cerca de 120 fs, utilizando para isso um laser de Centro de Cor [2]. 

Em 1992 descobriram que o laser de titânio-safira gerava pulsos de femtosegundos e era sintonizável. O Ferenc Krausz, de Viena, então colocou correção de chirp dentro da cavidade do laser de titânio-safira e conseguiu diretamente do laser, sem a necessidade de compressão de pulsos, corrigir o chirp e atingir pulsos de 10 fs. Daí chegou-se ao attomsegundos e o resto faz parte da história.

Notas:

[1] https://www.nobelprize.org/prizes/physics/2023/press-release/

[2] Depoimento do Prof. Carlos Lenz Cesar, Professor Titular no Departamento de Física da Universidade Federal do Ceará.


sábado, 30 de setembro de 2023

Insetos do passado

Uma lagerstätte é uma região na qual os fósseis apresentam um excelente grau de preservação. Muitos estudos melhoraram nossa compreensão do modo de preservação de fósseis do Lagerstätte Crato. O alto grau de preservação dos insetos mineralizados da Formação Crato, localizado na Chapada do Araripe e com idade da ordem de 100 milhões de ano, no sul do Estado do Ceará, é originado da difusão de íons através das carcaças e do envolvimento por bactérias que, por sua vez, criou condições microambientais que levaram à mineralização, principalmente à piritização. Insetos piritizados foram oxidados por intemperismo in situ em óxidos/hidroximinerais mais estáveis durante o Quaternário. O intemperismo intenso pode diminuir ou obscurecer a fidelidade morfológica, e pouca atenção tem sido dada aos processos pós-diagenéticos experimentados por esses fósseis. Com o objetivo de se preencher essa lacuna, tentou-se no trabalho da Ref. [1] - que consistiu numa parceria entre pesquisadores* do Ceará, Piauí e Paraná - determinar o grau de alteração sofrida por insetos que sofreram o processo de piritização na Formação Crato utilizando várias técnicas analíticas utilizadas na física e na ciência de materiais: microscopia eletrônica de varredura,  espectroscopia de raios X por energia dispersiva, espectroscopia de infravermelho por transformada de Fourier e espectroscopia Raman. Os resultados desse trabalho mostram que insetos bem preservados são preferencialmente substituídos por hematita e fósseis mal preservados são substituído por goethita. Além disso, registrou-se três tipos de alteração pós-diagenética: insetos com crescimento excessivo de óxido de ferro; insetos associados a revestimentos pretos, às vezes com a formação de dendritos; e insetos preservados como uma impressão, onde restou apenas o contorno dos seus corpos. Todas essas alterações têm o potencial de distorcer ou manchar a informação paleontológica. Ainda no trabalho da Ref. [1], mediu-se os efeitos das alterações telodiagenéticas em macro e micro escalas. Portanto, trata-se de uma abordagem tafonômica com ampla aplicabilidade onde quer que sejam encontrados depósitos contendo insetos mineralizados.


Referência:
[1] Effects of chemical weathering on the exceptional preservation of mineralized insects from the Crato Formation, Cretaceous of Brazil: implications for late diagenesis of fine-grained Lagerstätten deposits, F.I. Bezerra, J.H. da Silva, E.V.H. Agressot, P.T.C. Freire, B.C. Viana, M. Mendes, Geological Magazine 160, 911 – 926 (2023).
* Esse foi o último trabalho publicado em vida pelo Prof. João Hermínio da Silva, da Universidade Federal do Cariri, grande entusiasta da paleometria (aplicação de técnicas analíticas da física e da química para estudo de fósseis), falecido em 25/09/2023.

sexta-feira, 30 de junho de 2023

Olhando o céu

É possível realizar interessantes observações astronômicas mesmo com instrumentos com objetivas (no caso de telescópios refratores), ou espelhos (no caso de telescópios refletores) de baixas dimensões. Em tempos de mega telescópios orbitais como o Hobble e o James Webb, pode parecer sem sentido utilizar-se pequenos instrumentos na superfície do nosso planeta para se estudar os corpos celestes. De qualquer maneira, com os pequenos telescópios atuais disponíveis no mercado, no qual se acoplam facilmente sistemas de registros fotográficos, obter belas imagens de planetas e estrelas pode ser uma tarefa relativamente simples e bastante prazerosa. Um exemplo de fotos que podem ser conseguidas é mostrado abaixo. Trata-se da fotografia da superfície lunar obtida com um pequeno telescópio no Observatório Ferrucio Ginelli, da Seara da Ciência, equipamento de divulgação científica da Universidade Federal do Ceará.


Fotografia da superfície lunar, Seara da Ciência - Universidade Federal do Ceará.

Entretanto, mesmo na época em que não havia câmeras fotográficas que registrassem imagens digitais com qualidade, era possível se fazer boas e interessantes observações astronômicas, seja de eclipses (ver, por exemplo, a postagem de 06/07/2022 desse blog), seja de conjunções, seja de fenômenos transientes lunares (TLP), entre outros. Na figura abaixo apresento detalhes de observações que realizei no longínquo ano de 1984 com um telescópio refrator de 60 mm de diâmetro. É possível notar-se detalhes sutis das sombras das crateras e de montanhas que encontravam-se próximas do terminador, ou seja, da região lunar limítrofe entre a noite e o dia. O desenho superior à esquerda representa a região da cratera Moretus tal como observada no dia 02/11/1984 entre 19:20 e 19:40 no tempo local (TL). O desenho inferior à esquerda representa a região de Casatus, tal como foi registrado no dia 03/11/1984 entre 19:30 e 19:40 TL. O desenho do meio representa parte do terminador (colongitude 80 graus) mostrando Grimaldi e Hevelius, como observado em 09/09/1984. O desenho superior direito apresenta uma série de crateras observadas no terminador no dia 06/10/1984 e o desenho inferior à direita apresenta o terminador no dia 07/11/1984, com destaque para muitas elevações na região ao sul de Betinus.
Desenho de crateras e montanhas lunares localizadas no terminador em diversos dias do ano de 1984 (desenhos Tarso Freire, com grafite e tinta guache).

domingo, 8 de janeiro de 2023

O infinito de Hilbert

Na descrição da natureza, vez por outra aparece o conceito de infinito. Algumas culturas já mexiam com esse conceito, enquanto que outras o desconheciam. Na física o conceito de infinito pode aparecer na descrição matemática de alguns fenômenos, como um elétron que se movimenta livremente no espaço, sujeito a um potencial desprezível. Nessa descrição pode ser necessária a utilização de uma distribuição conhecida como função de Dirac δ(x), que possui entre suas propriedades o fato de que δ tende a infinito, quando x tende a zero. Entender o infinito pode ser uma tarefa um pouco complexa, mas eventualmente, divertida.

Imaginemos um hotel que possui infinitos quartos e que em cada quarto apenas um único hóspede pode ocupá-lo. Imaginemos também que o hotel encontra-se completamente ocupado. Então chega um hóspede; a questão é: ele poderá ser alojado nesse hotel de infinitos quartos que já encontram-se completamente ocupados? Esse problema é conhecido como Hotel de Hilbert, criado pelo matemático alemão David Hilbert (1862 - 1943). A resposta ao problema é positiva, é possível sim hospedar o novo hóspede. Basta passar o hóspede do quarto 1 para o quarto 2, o hóspede do quarto 2 para o quarto 3, o hóspede do quarto 3 para o quarto 4, e assim sucessivamente. Em outras palavras, basta apenas passar o hóspede do quarto de número n para o quarto de número n+1. Dessa maneira o quarto 1 ficará vazio e o novo hóspede poderá se hospedar.

Imaginemos agora que chegam 3 novos hóspedes e o hotel, da mesma forma, já está lotado. De maneira similar, é possível hospedar os novos hóspedes. Basta passar o hóspede do quarto 1 para o quarto 4, do quarto 2 para o quarto 5, do quarto 3 para o quarto 6 e, de maneira geral, do quarto n para o quarto n+3. Dessa forma, todos os antigos hóspedes poderão ser alocados e restarão os quartos de números 1, 2 e 3 para os novos hóspedes.

Vamos imaginar uma terceira situação. Próximo ao hotel de Hilbert lotado, existe um segundo hotel de Hilbert, ou seja, com infinitos quartos, que também encontra-se lotado. Chamemos esse segundo hotel de Hilbert de Hotel B. A pergunta que se faz é a seguinte: seria possível transferir todos os infinitos hóspedes do Hotel B para o hotel de Hilbert já lotado? A resposta também é 'sim'. Para isso acontecer pode ser feito o seguinte no hotel de Hilbert original: passa-se o hóspede do quarto 1 para o quarto 2, o hóspede do quarto 2 para o quarto 4, o hóspede do quarto 3 para o quarto 6 e, de uma forma geral, o hóspede do quarto n para o quarto 2n. Dessa forma, todos os antigos hóspedes ficarão ocupando os quartos de números pares e todos os quartos de números ímpares estarão vazios. Uma vez que existem infinitos números ímpares, será possível alocar todos os infinitos novos hóspedes.

Imaginemos uma quarta situação. Existem infinitos hotéis de Hilbert no Universo, todos com infinitos números de quartos e todos eles lotados. Imaginemos ainda que um cataclismo cósmico sem precedentes tenha inviabilizado o funcionamento de todos eles, com exceção de um único hotel de Hilbert, que chamaremos de hotel de Hilbert original (HHO). A questão que fazemos agora é a seguinte: seria possível transferir para quartos desse único hotel de Hilbert disponível, o HHO, todas as infinitas pessoas dos infinitos hotéis de Hilbert sem condições de funcionamento? 

A resposta, mais uma vez, e surpreendentemente, é positiva. Para isso, redistribui-se os hóspedes do HHO da seguinte forma: o hóspede do quarto 1 passa para o quarto 2^1 (dois elevado a um), ou seja, para o quarto 2; o hóspede do quarto 2 passa para o quarto 2^2 (dois elevado a dois), ou seja, para o quarto 4; o hóspede do quarto 3 passa para o quarto 2^3 (dois elevado a três), ou seja, para o quarto 8. De uma forma geral, passa-se o hóspede do quarto n para o quarto 2^n (dois elevado a n) e assim todos os hóspedes originais passam a ocupar quartos que representam potências do número primo 2. A seguir, transfere-se os hóspedes do primeiro hotel de Hilbert danificado e os aloca no HHO da seguinte maneira: o que encontrava-se no quarto 1 coloca-se no quarto 3^1 (três elevado a 1), ou seja, no quarto 3; o hóspede do quarto 2 coloca-se no quarto 3^2 (três elevado a dois), ou seja, no quarto 9; o terceiro no quarto 3^3, ou seja, no quarto 27; o do quarto n para o quarto 3^n e assim sucessivamente. Dessa maneira, todos os hóspedes do primeiro hotel sem condição de uso ficarão hospedados no HHO em quartos que são potência natural de 3. Em seguida transfere-se os hóspedes do segundo hotel de Hilbert danificado e os aloca no HHO da seguinte forma: o hóspede que encontrava-se no quarto 1 danificado coloca-se no quarto 5^1 (cinco elevado a um), ou seja, no quarto 5 do HHO; o hóspede do quarto 2 coloca-se no quarto 5^2, ou seja, no quarto 25; o hóspede do quarto 3 coloca-se no quarto 5^3, ou seja, no quarto 125, e de uma maneira geral, o hóspede do quarto n do segundo hotel de Hilbert danificado se hospedará no quarto 5^n do HHO. 

Quem conhece os números primos já entendeu que os hóspedes dos diversos hotéis estão sendo alocados em quartos do HHO de números que representam potências dos números primos. Assim, os hóspedes do terceiro hotel de Hilbert danificado seriam alocados em quartos que são potências do número 7, os hóspedes do quarto hotel de Hilbert seriam alocados em quartos que são potências de 11; os hóspedes do quinto hotel de Hilbert seriam alocados em quartos que são potências de 13 e assim sucessivamente. Como existem infinitos números primos, os infinitos hóspedes dos infinitos hotéis de Hilbert poderiam ser todos hospedados num único hotel de Hilbert. Ah, sim, um detalhe final: nessa distribuição, o quarto de número 1 ficou desocupado, o que significa que sempre haverá espaço para um hóspede que chegar ocasionalmente de surpresa!

Como conclusão dessa rápida discussão podemos afirmar: podem caber infinitos infinitos dentro do infinito! Mas essa conclusão não é geral. Há situações em que não é possível acomodar certos tipos de infinitos dentro do infinito. Mas isso é assunto para um outro texto.

domingo, 25 de dezembro de 2022

Parabéns, Newton!

Hoje é comemorado os 380 anos de nascimento do matemático inglês Isaac Newton, inventor das leis da mecânica e descobridor da lei da gravitação universal, além de importantes estudos sobre a ótica.

Newton é mundialmente conhecido porque desde quando começamos os estudos de física no ensino fundamental ou no ensino médio nos deparamos com as suas leis do movimento. Em particular, a segunda lei (F = ma) é tão importante para a descrição do movimento no mundo macroscópico que o prêmio Nobel de Física Frank Wilczek a denomina de 'alma da mecânica clássica'. Desde os gregos até chegar ao século XVII, muitos pesquisadores em vários locais da Europa, Ásia e África, tentaram entender o movimento e descrevê-lo de uma forma que pudesse ser entendida por outros estudiosos. Aí podemos citar, numa lista não exaustiva, Estradão, John Philoponus, Ibn Bajja (Avempace), Ibn Rushd (Averroe), Ibn Sina (Avicena), John Buridan, Thomas Bradwardine, Nicholas Oresme, Galileu Galilei, até chegar finalmente a Isaac Newton (por coincidência, Galileu morreu no ano em que este último nasceu).

Em seu livro "Principia Matemática da Filosofia Natural" - considerada uma das obras mais importantes da literatura científica de todos os tempos, encontrando um lugar no mais alto pedestal da ciência ao lado dos "Elementos", de Euclides - Newton estabelece as leis básicas do movimento, que são usadas até hoje. Entre os vários axiomas, definições e deduções encontra-se a definição 4, que afirma que uma força impressa é uma ação exercida num corpo que muda seu estado de repouso ou seu estado de movimento retilíneo uniforme. Entre os axiomas está a segunda lei que afirma que "uma mudança no movimento é proporcional à força motriz impressa e se dá ao longo da linha reta na qual a força é impressa".

Uma discussão importantíssima no Principia é a gravitação. Kepler havia avançado bastante a respeito do entendimento do movimento dos planetas em torno do Sol, em particular que as órbitas eram elípticas. Kepler acreditava que o Sol exercia uma força sobre os planetas, cuja intensidade diminuía com a distância. Entretanto, ele não possuía matemática suficiente para apontar como seria quantitativamente essa força. Posteriormente, Robert Hooke (1605 - 1703), fez a suposição de que a Terra e os demais corpos celestes exerciam uma atração apontando para os seus centros, e que a intensidade dessa força variava de acordo com a distância. Em janeiro de 1684, num encontro em Londres, Robert Hooke, Edmond Halley (1656 - 1742) e Christopher Wren (1632 - 1723) debateram sobre a natureza das órbitas planetárias e sobre a possibilidade delas serem explicadas por um lei do tipo inverso do quadrado. Halley confessara que tentara calcular segundo esse pressuposto e falhara. Hooke afirmara que conseguira, mas nunca mostrou esses cálculos.

Halley levou o problema para Newton, que vivia em Cambridge e esse falou que um corpo atraído por outro por uma lei do inverso do quadrado da distância terá uma órbita elíptica com o corpo central em um dos focos, tal como estabelecido por Képler. Newton foi mais além, afirmando que as ações de todos eles são exercidas sobre os outros. Em dezembro de 1686, Newton publica o Principia, obtendo as leis de Képler, fazendo o teste da Lua e mostrando que a força que a Terra exerce sobre o seu satélite é da mesma natureza com que o Sol exerce sobre os planetas e, finalmente, que a gravidade existe universalmente em todos os corpos, sendo dependente da massa desses corpos e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre seus centros.


Figura: Cópia antiga do livro Principia, de Newton.


Newton teve vários desafetos ao longo de sua vida, o principal deles sendo o colega de Academia, Robert Hooke. Em parte isso se deveu ao fato de que na época, a divulgação das principais ideias se dava principalmente por meio de livros, comunicações orais ou cartas a outros cientistas. Não havia ainda os periódicos científicos como existem hoje em que se pode publicar uma pesquisa e ali ela fica registrada. Como escrito anteriormente, acredita-se que Hooke desconfiasse que a Terra possuía um poder gravitante apontando para o seu centro e que atraía outros corpos com uma força que variava de acordo com a distância. Mas Hooke não possuía matemática suficiente para colocar essas ideias numa lei simples tal como conseguido por Newton, em particular mostrar que a força aponta para o centro dos planetas. O importante é que Newton conseguiu descobrir a lei da gravitação universal e, de fato, ele foi o primeiro a entender que a lei possui um caráter 'universal', ou seja, vale para qualquer par de massas no universo. Parabéns, Newton! 


terça-feira, 4 de outubro de 2022

Prêmio Nobel de Física 2022


A mecânica quântica, quase 100 anos após a sua invenção por Schrödinger, Dirac e Heisenberg, entre outros, continua a nos surpreender. Nos últimos anos os chamados estados emaranhados se estabeleceram de forma definitiva no dia a dia dos laboratórios e da pesquisa. Por conta disso, a Real Academia Sueca de Ciências decidiu conceder o Prêmio Nobel de Física de 2022 a Alain Aspect, John F. Clauser e Anton Zeilinger “por experimentos com fótons emaranhados, estabelecendo a violação das desigualdades de Bell e pioneira na ciência da informação quântica”.

Alain Aspect, John Clauser e Anton Zeilinger conduziram experimentos inovadores usando estados quânticos emaranhados, onde duas partículas se comportam como uma única unidade, mesmo quando separadas. Seus resultados abriram caminho para novas tecnologias baseadas em informações quânticas. Como consequência desses estudos, existe agora um grande campo de pesquisa que inclui computadores quânticos, redes quânticas e comunicação criptografada quântica segura.

Um fator-chave nesse desenvolvimento é como a mecânica quântica permite que duas ou mais partículas existam no que é chamado de estado emaranhado. O que acontece com uma das partículas em um par emaranhado determina o que acontece com a outra partícula, mesmo que estejam distantes.

Por muito tempo, a questão era se a correlação era porque as partículas em um par emaranhado continham variáveis ​​ocultas, instruções que lhes diziam qual resultado deveriam dar em um experimento. Na década de 1960, John Stewart Bell desenvolveu a desigualdade matemática que leva seu nome. Segundo Bell, se houver variáveis ​​ocultas, a correlação entre os resultados de um grande número de medições nunca excederá um determinado valor. No entanto, a mecânica quântica prevê que um certo tipo de experimento violará a desigualdade de Bell, resultando em uma correlação mais forte do que seria possível.

John Clauser desenvolveu as ideias de John Bell, levando a um experimento prático. Quando ele fez as medições, elas apoiaram a mecânica quântica violando claramente uma desigualdade de Bell. Isso significa que a mecânica quântica não pode ser substituída por uma teoria que usa variáveis ​​ocultas. Algumas brechas permaneceram após o experimento de John Clauser. Alain Aspect desenvolveu um experimento no qual ele foi capaz de mudar as configurações de medição depois que um par emaranhado deixou sua fonte, de modo que a configuração que existia quando eles foram emitidos não poderia afetar o resultado. Usando ferramentas refinadas e uma longa série de experimentos, Anton Zeilinger começou a usar estados quânticos emaranhados. Entre outras coisas, seu grupo de pesquisa demonstrou um fenômeno chamado teletransporte quântico, que possibilita mover um estado quântico de uma partícula para outra à distância.

Tornou-se cada vez mais claro que um novo tipo de tecnologia quântica está surgindo. Podemos ver que o trabalho dos laureados com estados emaranhados é de grande importância, mesmo além das questões fundamentais sobre a interpretação da mecânica quântica", afirma Anders Irbäck, presidente do Comitê Nobel de Física.

Fonte: Página oficial do Facebook do Prêmio Nobel.

quarta-feira, 6 de julho de 2022

O espetacular eclipse de 06/07/1982

A Astronomia nos mostra nossa insignificância diante da imensidão do universo. Somos viajantes que chegaram há pouco tempo e em breve teremos que partir. Ou nas palavras de Shakespeare, somos como "um ator que treme e freme o seu papel no palco; as luzes serão apagadas, as cortinas cerradas e tudo estará em silêncio novamente." Nesse átimo de tempo, eventualmente, teremos a sorte de enxergar algumas das maravilhas da natureza. Os eclipses lunares, certamente, estão entre esses fatos espetaculares.

No dia 06 de julho de 1982, portanto há exatamente 40 anos, ocorria aquele que foi considerado como um dos mais belos eclipses do século XX. Como tive a sorte de observá-lo e de fazer alguns registros, reproduzo-os a seguir. A equipe era composta, além de mim, por Francisco Antônio Gomes, Hélio Freire e Silva e Helder Emanuel Freire. As observações foram realizadas com um telescópio Tasco 60 x 700 mm, com uma ocular de 20 mm. Para se conseguir algumas fotografias, como a que aparece na Figura 1, utilizou-se um adaptador no local da ocular, que acoplava-se a uma máquina fotográfica reflex Pentax. Como não sabíamos exatamente o tempo de exposição a ser utilizado nas fotos, elas foram tiradas com diferentes valores. Muitas delas ficaram superexpostas, mas isso só foi percebido no dia posterior quando as mesmas foram reveladas (nessa época não havia fotografia digital, ou pelo menos, elas não eram disponíveis comercialmente). O primeiro contato da sombra foi registrado às 5 h 31 min 30 s (TU), estando a visibilidade regular, com algumas nuvens esparsas. O segundo contato da sombra deu-se às 6 h 40 min 11 s, com a visibilidade já estando boa, sem nenhuma nuvem para atrapalhar a observação. Ao longo da madrugada foi possível registrar a entrada na sombra (primeiro e segundo contatos) das seguintes crateras: Riccioli, Grimaldi, Kepler, Aristarchus, Schickard, Copernicus, Eratostenes, Tycho, Plato, Proclus e Cleomedes. Na escala de Danjon encontramos para a coloração da Lua 2,5, visto que ela apresentava-se com uma cor entre o vermelho ferruginoso e um vermelho tijolo. As observações prosseguiram até às 08 h 20 min (TU), quando já não tínhamos mais horizonte para observação (essas informações foram publicadas no Boletim Zodíaco da Sociedade Brasileira dos Amigos da Astronomia, no número de Agosto de 1982). 



Figura 1: Foto da Lua durante o eclipse de 06/07/1982, obtida com um telescópio refrator com objetiva de 60 mm com uma câmera Pentax reflex adaptada ao telescópio (Boletim Zodíaco da Sociedade Brasileira dos Amigos da Astronomia, Agosto/1982).


Figura 2: Coloração da Lua na fase máxima do eclipse, ou seja, 7 h 10 min (UT), mostrando o polo norte lunar imerso numa coloração mais escura, enquanto que o polo sul, um vermelho ferruginoso forte. Essa imagem contribuiu para a fabricação do mapa compósito da Lua, coordenado pelo Prof. Rubens de Azevedo, e que contou com a colaboração de mais dez outros observadores em Fortaleza.


No total, em Fortaleza, foram utilizados 11 telescópios em oito diferentes locais da cidade. Houve uma interessante preparação para se realizar as observações. No número de julho de 1982 do Boletim Zodíaco, que foi distribuído aos sócios da Sociedade Brasileira dos Amigos da Astronomia antes do fenômeno, foi publicada uma tradução do trabalho do Dr. Ignácio Ferrín, da Associação Venezuelana de Astronomia e do Centro de Investigaciones de Astronomia da Venezuela, "Como observar um eclípse total da Lua", que fornecia interessantes sugestões para os observadores. Participaram das observações em Fortaleza, além dos 4 já citados (com os detalhes da observação descritos no parágrafo anterior), Marcos Antônio Alves, José George Campelo de Albuquerque, Ferruccio Ginelli, Manoel Luciano Pedrosa de Souza, Francisco Coelho Filho, Dermeval Carneiro Neto, Rubens de Azevedo, Lineto de Araújo Chaves e Augusto Barros Penteado Filho. Esse grupo de 13 observadores eram estudantes, professores, um torneiro mecânico, um engenheiro, um contador, um contínuo, entre outros, todos amadores no sentido astronômico do termo. Eles conseguiram escrever um pequeno manuscrito sobre o eclipse, que foi submetido à conceituada revista Sky & Telescope; entretanto, por um motivo técnico, relacionado ao mapa compósito com as cores da Lua no auge do fenômeno, o trabalho não foi publicado. De qualquer forma, a experiência de todos aqueles que participaram é algo que eles consideraram como indescritível: um momento para marcar os participantes por décadas e décadas.