Excertos do capítulo 18 do nosso livro “Ecos longínquos de ondas... de universos: História da Física Quântica”, publicado pela editora Dialética.
“A mecânica ondulatória se
consolidava no mundo acadêmico. No final de 1926, Schrödinger viajou com sua
esposa Anny para os Estados Unidos para dar uma série de palestras. A viagem ao
outro lado do Atlântico o ajudou a divulgar a teoria, não apenas nesse novo
país, mas também no velho continente, embora de forma fortuita.
Periodicamente, na Bélgica,
acontecia um importantíssimo encontro de cientistas das áreas da física e da
química, financiados por uma indústria de produtos químicos, a Solvay. Mas era
um encontro reservado, onde apenas os principais cientistas da época recebiam
convites, como vimos no caso de Maurice de Broglie, para discutirem as
pesquisas de ponta. O tema escolhido para o ano de 1927 foi “A teoria quântica
e as teorias de radiação”. No comitê científico da conferência encontravam-se
nomes como Albert Einstein, Hendrik Lorentz, Paul Langevin e Marie Curie, entre
outros, o que significava que a seleção dos palestrantes era bem criteriosa.
Entre os expositores, à princípio, estavam elencados Lawrence Bragg, Charles
Wilson, Arthur Compton, Louis de Broglie, Hans Kramers, Werner Heisenberg, e o
próprio Einstein, que poderia falar sobre a aplicação da estatística aos
quanta, ou seja, sobre a sua recentemente descoberta estatística de
Bose-Einstein.
Einstein, entretanto, não se
sentia muito confortável para falar em um congresso dedicado ao novo
desenvolvimento da teoria atômica e sugeriu que Schrödinger fosse convidado em
seu lugar. Inicialmente, Lorentz mostrou certa relutância em convidar aquele último
porque não se achava suficientemente convencido do método de Schrödinger. Mas
na mesma época em que o vienense encontrava-se nos Estados Unidos, Lorentz
ministrava um curso no California Instituto of Technology, o famoso Caltech,
tendo a oportunidade de conversar sossegadamente com Schrödinger sobre o seu
modelo. Lorentz se convenceu sobre a validade da mecânica ondulatória e
concordou, finalmente, em se fazer o convite para se discutir a mecânica
ondulatória no próximo mês de outubro.
Enquanto isso, Heisenberg
trabalhava desesperadamente para mostrar que a sua mecânica matricial era
superior à mecânica ondulatória, e Bohr tentava produzir uma versão que
unificasse a visão de partícula e a imagem de ondas dos elétrons, mantendo os
saltos quânticos e carregando simultaneamente as ondas em seu bojo. Uma tarefa
de dimensão astronômica, a bem da verdade. Por conta dos interesses diversos, a
estadia de Heisenberg em Copenhague durante o segundo semestre de 1926 foi um
grande período de tensão entre os dois sábios. Para completar a complexa
equação, durante a mesma época encontrava-se no instituto, o físico sueco Oskar
Klein (1894 – 1977), com o qual Heisenberg teve algumas rusgas. De qualquer
forma, os diálogos com o mestre dinamarquês plantaram as sementes do que viria
a ser denominado de princípio da incerteza, que falaremos no próximo capítulo.
(...)
Em junho de 1927, a lista de
palestrantes da conferência Solvay ficou pronta e Schrödinger foi informado por
Lorentz que ele era um deles (Dirac e Pauli também acabaram sendo convidados,
embora como delegados, ou seja, poderiam assistir às palestras e participar das
discussões, mas não ministrariam nenhum seminário). Lorentz pedia também que os
palestrantes enviassem um resumo até o começo de setembro, mas Schrödinger
acabara de se mudar para Berlim para ocupar o lugar de Planck. Por conta disso,
ele encontrava-se bastante ocupado com a mudança e a preparação dos cursos a
serem ministrados durante aquele semestre. As múltiplas atividades retiraram do
físico vienense tempo para continuar as suas pesquisas em mecânica ondulatória.
O sucesso o estava impedindo, naquele momento, de continuar as investigações na
física, que era o que ele mais apreciava. Mas o trabalho de fôlego de
Schrödinger já estava concluído.
A conferência aconteceu entre os
dias 24 e 29 de outubro de 1927. Schrödinger ministrou uma das principais
palestras, La Mécanique des Ondes. Novamente, como ocorrera em Munique, ele
expôs o formalismo matemático da teoria e lembrou que o sistema físico representado
por pontos materiais não existe, a realidade é composta por algo que preenche
todo o espaço continuamente, sendo descrito pela função de onda. Mostra, então,
que o quadrado da função de onda, representava uma imagem do sistema clássico
em todos os seus estados possíveis, ponderados pelo número ψψ*. Como destacado
na Ref. [69], tal interpretação era quase similar àquela fornecida por Born,
com exceção do fato de que para a turma de Göttingen e Copenhague, ‘sistema
clássico de ponto material’ era um absurdo conceitual. Após a exposição de
Schrödinger, houve uma discussão na qual principalmente Born e Heisenberg
levantaram fortes objeções. Por aquela época, um consenso sobre o significado
da teoria ainda jazia num tempo indefinido no futuro.
A honra de palestrar na Quinta
Conferência Solvay se constituiria apenas em um dos primeiros reconhecimentos
da grandeza da descoberta de Schrödinger.”